“A gente não tem tempo” é provavelmente a frase mais repetida por casais de meia-idade. Ela aparece para explicar por que não viajam, por que não conversam, por que não fazem mais aquilo que faziam. E soa razoável, porque de fato a agenda de quem tem quarenta ou cinquenta anos é cheia.
Mas repare numa coisa: a mesma pessoa que não tem tempo para uma conversa de meia hora encontra tempo para duas horas de televisão. Não é hipocrisia. É outra coisa.
Tempo não é o recurso escasso
O recurso escasso é energia — mais especificamente, energia para coisas que exigem presença. Assistir televisão não pede nada de você. Uma conversa que pode dar errado pede bastante.
Quando alguém diz “não tenho tempo”, muitas vezes está dizendo “não tenho fôlego para isso hoje”. E como essa segunda frase soa como confissão, a primeira serve de tradução aceitável.
Onde isso vira problema
O problema não é adiar uma vez. É que o adiamento não tem freio natural. Ninguém marca no calendário “conversa pendente”. Ela simplesmente não acontece, e a ausência dela não faz barulho nenhum — até o dia em que faz.
Casais que se separam depois de vinte anos raramente apontam uma briga. Apontam um acúmulo. E acúmulo é o nome que se dá a muitas conversas que não couberam na semana.
Uma pergunta melhor
Em vez de perguntar se você tem tempo, pergunte o que teria que sair da semana para caber. A resposta costuma ser desconfortável e esclarecedora: quase sempre é algo que você não quer perder, e aí a conversa deixa de ser sobre agenda e passa a ser sobre prioridade.
Não estou dizendo que prioridade tem que ser o relacionamento. Tem fases em que o filho doente, o trabalho em crise ou a mãe idosa vêm antes, e isso é legítimo. O que não é legítimo é fingir que a escolha não foi feita.
O tamanho certo
Quem tenta resolver isso costuma exagerar na dose: marcar um fim de semana fora, planejar uma viagem, criar um ritual novo. É bonito e quase nunca sobrevive ao segundo mês.
O que sobrevive é pequeno. Vinte minutos sem tela, no mesmo horário, com alguma regularidade. Parece pouco perto do problema. Mas vinte minutos por dia é mais do que a maioria dos casais de longa data teve no último ano inteiro.
Ronaldo Teixeira escreve no Momento de Leitura sobre o que acontece com os afetos depois dos cinquenta. Passou por um casamento de vinte e dois anos, por uma separação difícil e por um recomeço que ainda está em andamento — e escreve a partir daí, sem pressa de concluir.





